ROSE
Opinião
Vestir calça comprida é uma questão de liberdade. Baseado em inúmeras histórias documentadas de mulheres que vestiram roupas masculinas para não serem abusadas, estupradas, o diretor e roteirista Markus Schleinzer constrói a história de Rose, uma mulher que se passa por homem para existir e não morrer. Retrata uma condição da época de extrema repressão diante da impossibilidade de a mulher ter uma condição social além da maternidade e dos cuidados com a casa.
Ambientado no século 17, ROSE se passa por soldado e luta na devastadora guerra dos 30 anos do Sacro Império Romano-Germânico. Depois do conflito, continua com o disfarce masculino, instala-se em um pequeno vilarejo protestante, assume uma identidade falsa e se diz herdeira de uma fazenda abandonada. Tem em mãos os documentos, recupera a plantação, os animais e instaura um trato diferente com os funcionários. Torna-se uma respeitada proprietária de terra — não sem alguma suspeita e desconfiança dos habitantes do vilarejo. Mas para que a vida seguissem sem tantos boatos, acolhe o clamor popular de casar-se com Susanna, uma moça de uma família importante, o que de fato abafou por mais um tempo os boatos por ali.
Sandra Hüller (também de Zona de Interesse e Anatomia de uma Queda) é Rose, esta mulher de calças compridas em uma época em que o figurino era estritamente para homens. “Quando nos reinventamos, sempre estamos matando uma parte de nós”, diz Sandra Hüller na Berlinale. “No caso de Rose, reinventar-se era uma maneira de sobreviver.” A discussão do filme vai além do silenciamento feminino. Entra na seara do esforço e empenho masculino em invisibilizar a mulher e no risco que muitas correram para ter voz no mundo. Filmado em preto e branco, tem como objetivo não distrair o espectador com símbolos falsos. “O que o preto e branco reorganiza o foco, traz as pessoas de volta para o personagem”, explica o diretor. Markus Schleinzer foca no essencial, inclusive no entendimento que se cria entre mulheres para que fosse possível ao menos sonhar com a autonomia e independência.
Muito bem recebido aqui na Berlinale, dialoga intimamente com os dias ainda sufocantes de hoje na figura de Rose, que se relaciona com Susanna numa essencial complementariedade, a quem ensina ler e escrever, como uma simbologia de um passo dado além da possibilidade feminina da época.


Comentários