FJORD

Cartaz do filme FJORD

Opinião

O que acontece quando você faz parte de uma minoria e tem sua intimidade invadida porque seus valores não se encaixam na sociedade em que vive? Num país democrata e progressista, a máxima os-incomodados-que-se-retirem não tem valor. É preciso criar o debate, ouvir as partes e deliberar. Fazer justiça. Mas justiça pra quem? Fjord, do romeno Cristian Mungiu, levou a Palma de Ouro e instigou o debate após a exibição em Cannes, com uma questão-chave: neste mundo cada vez mais polarizado, como é possível traçar e defender o caminho do meio?

O título já nos diz que existe algo imponente nesta história. Composta pela norueguesa Lisbet (Renate Reinsve) e pelo romeno Mihai Gheorghiu (Sebastian Stan) e seus cinco filhos, essa família ultra-religiosa se muda para um vilarejo aos pés dos fiordes, onde a imensidão das montanhas faz com que qualquer ser humano se sinta pequeno. A natureza é protagonista e acompanha o tom da trama — e do thriller — em que os personagens estão. Ali os Gheorghiu se estabelecem, as crianças vão pra escola, os pais prestam serviço na igreja evangélica local e a família segue na rotina com seus hábitos conservadores e disciplinares, sem que isso altere a vida da comunidade.

Até que comportamentos repressivos e punitivos em relação à educação das crianças vêm à tona e automaticamente o problema passa para a seara das autoridades de assistência social que, ancoradas pela lei de proteção à criança e adolescente, têm o direito de intervir na dinâmica familiar.  “O filme não é uma crítica à Noruega e isso nem faria sentido”, diz Cristian Mungiu na entrevista coletiva em Cannes. “É um filme sobre conflito de valores em que o conservador e o progressista se chocam e é preciso estar em uma sociedade livre pra abrir esta reflexão.” Claro, porque a locação desta história jamais poderia ter sido a Romênia ou qualquer outro país onde não existe liberdade de expressão e as minorias sofrem, automaticamente, represálias. E onde o debate jamais aconteceria.

Fjord provoca. Tira os contornos que determinam onde começa e termina nossas certezas e borra tudo. “O cinema deve provocar, fazer você reconsiderar suas opinião e avaliar se ela continua válida”, propõe Mungiu. Seria ousado questionar a Noruega, um país cuja democracia é sonho de consumo de quem entende a liberdade de expressão política, religiosa, ideológica essencial para se viver bem. Mas é preciso coragem pra ir contra a corrente e expor que mesmo onde se tem uma sociedade mais perto do ideal, são seres humanos que estão no comando e a ambiguidade se apresenta, de um jeito ou de outro. Inspirado em histórias reais coletadas durante anos de jornais locais, Mungiu cria nuances e zonas cinzentas em Lisbet e Mihai para defender sua tese de que nem tudo é preto no branco. Entre o certo e o errado há uma infinidade de maneiras de enxergar o mundo.

 

 

 

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