HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET – HAMNET
Opinião
Imaginar a vida pregressa de quem só apareceu pra nós após a fama e não deixou registros confiáveis é um exercício às avessas. É como observar o que essa pessoa executou em vida e, dentro de uma lógica de conhecimento de mundo — e vivência de emoções —, imaginar como teria sido sua vida, sua família, suas experiências para que fosse possível realizar os feitos que lhe renderam fama. Assim fez Maggie O’Farrel ao imaginar o que teria sido a vida de William Shakespeare antes de escrever Hamlet. Assim fez a diretora Chloé Zhao ao roteirizar o livro escrito por O’Farrel e nos presentear com HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET com uma experiência que transcende a lógica e invade os sentidos.
HAMNET é um filme sensitivo na sua integridade. Aliás, é íntegro. Coerente nas escolhas pra despertar no espectador as conexões sensitivas que vêm junto com gestos, cores, sons, silêncios, diálogos, olhares, Chloé Zhao (também de Nomadland) é capaz de transmitir força e vulnerabilidade, luz e sombra, arte e apatia, alegria e luto ao mesmo tempo. Humano, melhor dizendo. Somos tudo isso junto. Deslocado no tempo em cinco séculos, voltamos para o final dos anos 1500 na Inglaterra, mas a maternidade, a família, a conexão com a natureza e a arte evocam identificação com cada espectador de forma particular e única. Como se a história de Hamnet fosse um pouco nossa também.
Faz sentido. No centro da narrativa está Agnes (Jessie Buckley), uma jovem que se conecta com a natureza de forma única, assim com as mulheres da família antes dela. Aos ortodoxos, uma bruxa-alquimista; aos observadores cuidadosos, uma mulher sensível, sensitiva e intuitiva. Agnes se encontra com Will (Paul Mescal), um professor aspirante a dramaturgo, e o amor é imediato. Will virá a ser William Shakespeare, mas a intimidade do anonimato é peça-chave para a emoção que virá. Agnes e Will têm três filhos e o menino, Hamnet, fica gravemente doente. O baque vem enquanto Will passa cada vez mais tempo em Londres tentando encontrar um lugar na cena teatral da capital e a família segue em Stratford-upon-Avon.
O que se vê a partir daqui é o encontro da família com a dor e o luto. O que era conexão se desconecta e será a arte a responsável por possibilitar uma conciliação com o passado e com o presente. O futuro ainda fica suspenso, mas o distanciamento histórico nos dá o privilégio da certeza de Hamlet. O que HAMNET apresenta é a observação do presente abrindo possibilidades de sentir. Por isso, sentimos do lado de cá da tela. Agnes de vermelho, dos pés na terra, visceral; Will de azul, ligado ao intelecto, à alma. Tudo composto pra nos emocionarmos sentindo a arte como esta poderosa fonte de conciliação e compreensão de mundo.

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