O FILHO DE MIL HOMENS

Cartaz do filme O FILHO DE MIL HOMENS

Opinião

Valter Hugo Mãe esteve no Brasil por ocasião da Mostra SP este ano, não só porque foi o responsável pela arte e vinheta do festival, mas também porque veio acompanhar o lançamento de dois filmes: o documentário De Lugar Nenhum, de Miguel Gonçalves Mendes (leia sobre o filme aqui) e a ficção O FILHO DE MIL HOMENS, adaptação para o cinema de seu livro homônimo, que o diretor Daniel Rezende conseguiu traduzir em imagens — e em sensações — a prosa poética que faz dessa uma obra única.

Conversando com Miguel e Valter, falamos do processo criativo dos filmes, pensando na importância das experiências como alimento para a imaginação. Traduzir em palavras aquilo que o escritor sente e quer transmitir ao leitor é um talento que muda tudo. Mas muda tudo pensar que a observação é a base para o começo de uma história. “Acho mais interessante ficar meio em aberto, inclusive pra vir a ser alguma coisa que nunca pensamos ser, mudarmos e aprendermos”, diz Hugo Mãe sobre sua visão de mundo. A história de Crisóstomo, o pescador solitário que decide buscar um filho aos 40 anos pra preencher um vazio, mergulha neste princípio: experimentar o novo.  

O FILHO DE MIL HOMENS é uma fábula construída com ferramentas cinematográficas do realismo mágico. Ou seja: é preciso mergulhar, se dispor a experimentar sensações novas, perceber o diálogo do filme com sua história e aprender com ela. “Para mim, o conceito de aprendizagem é mudar de conduta”, explica o escritor. “Tomar conhecimento de algo não é aprender. Você pode tomar conhecimento da coisa mais brilhante, mas se não colocar em prática, não aprendeu nada, só tomou conhecimento e ficou exposto à informação.”

Mas o que o aprendizado tem a ver com a história do pescador que vai agregando pessoas no pequeno vilarejo, formando sua família afetiva com pessoas que passam do rótulo “inadequadas” ao centro fraterno ao redor da casa azul à beira-mar? Tudo a ver: Crisóstomo se propõe a aprender a viver de forma diferente. Lindamente adaptado, traduz em imagens a dureza do olhar dos personagens que rotulam e não estão dispostos a aprender e aceitar o desconhecido, mas também a generosidade de quem aprende e apreende o novo. A poesia, em palavras, sons, imagens, cores, é a ferramenta que nos conduz pelos sentidos e abre essa janela de criatividade e curiosidade. “O maravilhoso da poesia é que você subitamente depara-se com um poema de um poeta qualquer, que você nunca ouviu falar, e o poema ilumina a sua vida de uma maneira que você não sabia, não tinha previsão”, diz Valter. Esse imprevisto é a janela do aprendizado; a curiosidade é a chave. “Uma cidadania rígida é uma cidadania estagnada, não criativa, não é sequer humana.” Abrir-se para uma linguagem cinematográfica que permite mergulhar no imaginário é permitir experimentar algo, no mínimo, novo. 

Nem que seja pra não gostar. A história de Crisóstomo não é sobre aprovação, mas sobre a não-rejeição, o não-rótulo. Restringir é limitante. “Acho que enriquecemos se nos mantivermos livres de sabermos exatamente quem somos, ou seja, é bom saber o suficiente, mas é bom estar disponível para sermos algo de surpreendente, para nos surpreendermos com nossas capacidades, oportunidades e imaginação.” Rótulos delimitam e Valter Hugo desata todos eles. Constrói personagens tão simbólicos quanto reais pra falar da nossa (in)capacidade de sermos livres dos julgamentos. “É no encontro do poema do outro que o seu poema também vai fluir na sua vida.” Ler o poema do outro é uma questão de disponibilidade ao aprendizado. Faz sentido. Hugo Mãe coloca isso bem claro quando sua prosa poética se instala no coração de quem lê — e, agora, de quem assiste pelas lentes de Rezende — e traz à sua vida uma coisa que você nunca seria capaz de fornecer. Mas que fará sentido e será fantástico — literalmente. 

 

 

 

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