A PROFESSORA DE FRANCÊS
Opinião
Não é preciso sair do cenário doméstico e cotidiano para pensar no extraordinário. Na vida real, também não. O que acontece é que existe a dificuldade (ou não-disponibilidade) de enxergar o que está diante dos nossos olhos. Não é à toa que justamente no ambiente do dia a dia, das tarefas rotineiras, Graça se sente mais e mais oprimida e sufocada. É no ordinário. É nos olhares, nas refeições, nos comentários. O suspense de A PROFESSORA DE FRANCÊS surge justamente de movimentos subliminares, olhares e gestos, que não precisam de sofisticação. O diretor Ricardo Alves Jr. sinaliza, justamente, que é no trabalho de formiguinha diário que se destrói uma pessoa, uma ideia, uma maneira de viver.
Alves contrói uma crítica social levada às últimas consequências pela protagonista Graça (Grace Passô). Ela é professora de francês, saiu da casa da família em Belo Horizonte para morar com a namorada francesa, porque já entendia a incompatibilidade de pensamentos. Mas o pai fica doente e, apesar do aparente acolhimento dos familiares e vizinhos, a tensão entre eles invade os mínimos detalhes, se acomoda e se apodera. O que começa com um retrato mais naturalista na volta de Graça pra casa do pai para ajudá-lo, é transformado pela dimensão sobrenatural que a história ganha. Faz sentido diante do fanatismo religioso dominante; pode não fazer sentido aos que encaram o filme de forma mais pragmática.
O convite é para entrar na casa. Para vê-la como a casa interna que cada um chama de sua. Uma metáfora da opressão político religiosa, homofóbica e perniciosa. A casa é o personagem que abriga lados opostos, molda-se diante dos desafios e ameaças, é protagonista de uma dinâmica doentia. Grace Passô carrega o filme do começo ao fim, amparada na dramaturgia por seus opositores que manipulam e sufocam, numa vigilância até não poder mais.


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