MULHER DESCONHECIDA – WOMAN UNKNOWN

Cartaz do filme MULHER DESCONHECIDA – WOMAN UNKNOWN

Opinião

Quando MULHER DESCONHECIDA foi apresentado no Festival de Veneza, a diretora dinamarquesa May el-Toukhy comentou sobre sua necessidade de falar do corpo da mulher como “campo de batalha” em tempos de guerra. Do corpo como um lugar de posse, em que há disputa, sempre. Sem que se peça licença para entrar.

Não dá pra se descolar dessa ideia. Mais do que a linguagem do diálogo, a corporal é o elemento fundamental na construção da tensão naquele que parece ser, à primeira vista, um verdadeiro conto de fadas. Isso porque Marie (Mathilde Arcel) vive uma situação privilegiada neste momento sensível, em que a Europa acaba de sair da guerra e faz uma verdadeira caça às bruxas. Os talheres de prata, o rigor dos empregados, a delicadeza no cuidado com a pequena Leonora blindam a tensão que vem de fora. No elegante apartamento, Marie é babá da menina, mas logo assumirá o posto de esposa do patrão, um rico empresário dono de uma fábrica de luvas, que ficou viúvo. Subirá de posto, mas à sombra do passado inclusive na simbologia do vestido de noiva. O modelo do seu vestido será pensado a partir daquele usado pela patroa falecida. É o corpo e a simbologia que ele carrega fazendo seu papel na construção da linguagem do filme. A vida nova de Marie sofrerá sérios abalos quando ela encontra um antigo amigo e já não terá mais como evitar os traumas do passado.

Sem precisar explicar muito, May el-Toukhy, também diretora do intenso — e corporal — Rainha de Copas, sabe que fala com uma plateia que entende o implícito. Principalmente, a feminina. Entende o efeito do medo, da ausência de voz e de oportunidade de se colocar, de ser ouvida. Ilustra, inclusive, com cenas inspiradas em fotografias reais de mulheres sendo hostilizadas em praça pública pela resistência dinamarquesa. Denunciadas por terem se relacionado com soldados nazistas nos países ocupados, como a Dinamarca, eram humilhadas em praça pública, tinham o cabelo raspado e suásticas pintadas no corpo. Ela de novo, a linguagem corporal, marcando território. Da mulher, pouco sabemos, mas já julgamos. Afinal, a culpa sempre é dos outros.

Grande parte da força bruta do filme vem das escolhas estéticas da diretora, que inclusive esfumaça as feições e semblantes dando recado ao espectador (homens e mulheres) de que não precisamos de contornos precisos para saber o que há do outro lado do vidro jateado, mas podemos fingir não identificar. Às escolhas precisas da diretora, consagrada com o Leão de Ouro, junta-se a atuação estupenda de Mathilde Arcel, que ganhou a merecida Copa Volpi de atriz em Veneza.

Essencialmente, Mulher Desconhecida é sobre jogar luz nos territórios em que as lutas ocorrem. Importa menos quem tem razão; importa mais dar voz a quem invariavelmente julgada. Questionar a culpa de um renomado empresário que enriqueceu às custas da guerra não tem cabimento dentro da lógica da representatividade dos corpos; questionar por onde o corpo feminino andou na guerra, não só é cabível, como esperado. Campo de batalha dentro da mesma lógica, seja em tempos de guerra ou de paz.

Comentários