LA PERRA
Opinião
LA PERRA gira em torno de Silvia, uma mulher que vive em uma ilha remota do Chile e a adoção de uma cadela filhote, Yuri, constrói um vínculo que parece preencher um vazio existente na alma. A princípio, não se sabe de onde vem esse vazio, mas Silvia tem uma melancolia que rege sua maneira se relacionar com o mundo.
É preciso avançar no filme e voltar no tempo para entender qual o trauma que permeia sua solidão, suas escolhas e o ambiente em si. A A paisagem inóspita, ao mesmo tempo exuberante e desafiadora, é um personagem por si só. A diretora Dominga Sotomayor, que esteve no Festival de Cannes apresentando o filme, conta que adaptou o roteiro de La Perra do livro A Cachorra, de Pilar Quintana, e que a história original se passa na selva colombiana. Adaptar para o litoral chileno, em que o vento, as falésias, a localização remota já direciona o personagem (e o espectador) para o isolamento, é proposital. Ambiente vasto e ao mesmo tempo opressor. Tudo a ver com a condição de vida emocional de Silvia, que divide seus dias entre a coleta de algas marinhas e a limpeza e manutenção de uma casa cujos donos nunca estão. Já dá pra notar que a casa, toda envidraçada e de frente para o mar, era para ser um paraíso. Mas é só vazio, sufocamento e recordações.
Um dia Yuri desaparece e rapidamente a culpa que Silvia sente vem à tona. O espectador, então, entende seu comportamento. Mas dificilmente concorda, o que pode prejudicar a experiência do filme. Silvia vai às últimas consequências para conseguir lidar com seus sentimentos. Coprodução brasileira, tem Selton Mello no elenco e é justamente a sua chegada na ilha que vai depositar ali o trauma, algo que se apodera do corpo e da alma. Intenso como o vento que não para de soprar. Foi exibido na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes e ganhou a Palme Dog, prêmio para melhor participação canina; agora, está na seleção da 50ª Mostra SP. Tão melancólico quanto a paisagem. Um bom exemplo de cenário que é parte da narrativa e me fez lembrar de Casa de Areia, de Andrucha Waddington, em que a personagem parece tentar escapar de si mesma o tempo todo mas o ambiente, por si só, já é uma prisão.


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