QUEEN AT SEA
Opinião
A pergunta que não quer calar é sobre o título. Quando perguntado o porquê de QUEEN AT SEA na entrevista coletiva na Berlinale, o diretor Lance Hammer disse que poderia até ter escolhido outro, mas que essa expressão tão particular do inglês britânico calou fundo. Dizer que alguém está at sea, significa que a pessoa está confusa, totalmente desconectada da realidade. Começar por aqui já nos diz muito sobre a temática deste longa que traz a problemática recorrente do envelhecimento, da demência, da necessidade de cuidados especiais, inclusive com aquele que está na função de cuidador. Mas tem ainda um importante elemento que traz uma nova reflexão: a questão do consentimento e da sexualidade vem à tona e é o gatilho para que o filme se desenvolva.
Com fotografia do brasileiro Adolpho Veloso (também de Sonhos de Trem), é como se já tivéssemos visto este filme antes. Remete aos longas O Pai, de Florian Zeller, Amor, de Michael Haneke e Toque Familiar, de Sarah Friedland, que também apresentam os filhos nos cuidados dos pais idosos com todas as dificuldades de lidar com a doença, com o não reconhecimento daquela pessoa, com a vida cotidiana, com os cuidados e com a perda das referências. Em QUEEN AT SEA, Juliette Binoche faz Amanda, a filha que acompanha a mãe Leslie, que tem demência avançada, e seu padrasto, Martin, que também é idoso. Um dia, Amanda percebe que Leslie não tem mais discernimento e precisa interferir na dinâmica da relação do casal. Enfrenta a resistência de Martin, que insiste em continuar cuidando da esposa como sempre fez. “Amanda não questiona o amor de Martin por Leslie”, diz Juliette Binoche na Berlinale. “Ela enxerga o que Martin não vê, que é a sua incapacidade de cuidar e a necessidade de ele também ser cuidado.” Claro que, mais uma vez a casa, a casa é personagem. Pelas lentes de Veloso, as escadas são mostradas em toda a sua inclinação e inadequação, também sinalizando a necessidade de mudanças práticas e emocionais à medida que as fases da vida se apresentam.
Ao mesmo tempo, Amanda representa a mulher desta geração que se divide nos cuidados dos pais e dos filhos, muitas vezes também enfrentando desafios em sua vida particular. Admitir que a demência é um caminho sem volta e que reconhecer que pessoa amada já não é aquela que conhecíamos parece ser o desafio de quem está no comando das decisões.
Há quem diga (e sinta) que o longa fala mais do mesmo. Sou do time que admite (e sente) a necessidade de trazer, através da arte, este assunto que é tão sensível e cada vez mais presente. Com a longevidade em ação, vivemos mais tempo — tempo que acaba sendo o fator primordial para que as células pereçam e entremos no estado de desconexão. Sem falar no fator relacionamento netos e avós nesta possibilidade inter-geracional que também vem com a longevidade. Temas sensíveis e difíceis parecem ser melhor compreendidos através das histórias e seus personagens. É como compartilhar experiências e não se sentir tão só.


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